Quando penso no acaso que nos uniu,

no tropel sem rumo dos dias, no alarde

das cores que sobrevém à tempestade;

aos deuses, ao fado vejo o desafio

por nós lançado – em paixão prometéica:

uma contracorrente ao caudal do fastio,

arroubo sem freio, vontade herética,

a desaguar em plácida foz de rio.

Cegando as lâminas do tempo monótono,

a rasgar as carnes do tédio com escárnio,

na febre alquímica do nosso compósito,

fundindo em riso o que é raro e é vário.

Painting: Chance Encounter, by Carolee Clark.

blogdosperrusi

4 comentários para “Por acaso”

  1. (lá se venho querendo plantar discórdia, porque eu não acredito em acaso – destino e outras coisitas más -, acredito em assunção, em escolher, esse ato de fé e de coragem que é dizer sim, não, talvez, rs, não desconsiderando o imprevisível, o imponderável)

    mas voltando ao poema, gosto imenso da ambiguidade dele, porque fala dos extremos, colorindo o caminho. apesar da pouca fé e da necessidade de tê-la ao mesmo tempo, as possibilidades que se abrem são tão vastas, “tão várias”.

    falo do poema como obra plural, e já não vejo um sentido pessoal, uma primeira pessoa.

    esse texto belo (o que já é um axioma) remete-me a um do Borges, O Advento:

    “… Algo,
    quizá la ejecución de una promesa,
    la muerte de un rival en la montaña,
    quizá el amor, quizá una piedra mágica,
    me había sido otorgado. Lo he perdido.
    Gastada por los siglos, la memoria
    sólo guarda esa noche y su mañana.
    Yo anhelaba y temía. Bruscamente
    oí el sordo tropel interminable
    de una manada atravesando el alba.
    [...]
    Eran miles.
    Son los bisontes, dije. La palabra
    no había pasado nunca por mis labios,
    pero sentí que tal era su nombre.
    Era como si nunca hubiera visto,
    como si hubiera estado ciego y muerto
    antes de los bisontes de la aurora.
    Surgían de la aurora. Eran la aurora…”

    a imagem dos bisontes, em tropel, pisoteando os homens primitivos, que tiveram que se resguardar numa caverna, e esperar que a luz passasse por uma greta, e quando puderam falar, o nome que principiou o mundo: Altamira!

    Beijo, Josias, ainda hoje a poesia de sexta entremeia-me!

  2. Geó, depois de sexta, me falta coragem para comentar qualquer coisa tua. Não por acaso.
    Ai vem Boca e traz essa análise quase milimétrica. E eu aqui só a sentir, como sempre fico. Também, como ela, não creio no acaso, porém é tão bom pensar nele…e acho que é deste acaso que falas. O acaso que nos deixa mais leves, porque não dá pra pensar em escolher o tempo todo, embora seja isso mesmo o que fazemos.
    O que senti – só isso que sei – é do romantismo do teu poema. Todo ele é muito bonito. A última estrofe é lindíssima, dá vazão ao acaso proposto.
    Beijo.
    Magna

  3. Vim conhecer através da Branquinha,
    e já vi a poesia mora por aqui, muito bonito!

  4. Geó,

    Naquele dia, naquela mesa,
    Leste o poema, contaste a história.
    E hoje na memória, eu quase sei de cor.

    Lendo aqui as letras impressas,
    Sinto-o mais robusto e altivo,
    Não sei por qual motivo,
    Leio-o assim sem pressa.

    E mesmo a poesia mais completa,
    Na ponta do lápis desse espaço culto,
    Prefiro a voz de quem aqui exulto,
    Pois doce são os versos na boca do poeta.

    Dimas

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